Quase no final de
2018, em Outubro, eu tive uma experiência com “amores do passado”. Em 2012, eu
entrei na Brighton High School, e Anthony estava lá, lindíssimo, sentado nas
cadeiras do fundo, mas não porque era o bad boy, mas sim porque ele tinha 1,80m
de pura gostosura e cabelo bonito.
Anthony tinha cabelo
loiro escuro, mas eventualmente ele vinha para a escola com o cabelo molhado, e
assim ele ficava moreno escuro, quase tanto quanto o meu. Achava engraçado o
quanto o cabelo dele demorava para secar, porque as vezes terminávamos o
primeiro período e ele ainda estava escuro.
Seus olhos partilhavam
da mesma escuridão, e quando ele sorria, ficavam miúdos, quase orientais, mas
sem nenhuma descendência. E, além disso, ele era atleta, jogava basquete no
time da escola, mas não era muito popular. Anthony sempre foi mais reservado, e
dava para ver que preferia relacionamentos mais intensos e que gostava de ter
sempre pessoas por perto para dar-lhe atenção, então preferia fazer amizades
com os colegas de sala mesmo. E ele nunca falhou, porque era amigo de
absolutamente todos os indivíduos daquela sala.
Anthony e eu nos
aproximamos porque tínhamos um gosto musical um tanto peculiar para os nossos
12 anos: eu e ele sabíamos todas as músicas do Guns N’ Roses e do AC/DC. Nunca
achei que conseguiria, com tão pouca idade, encontrar alguém para cantar
Paradise City inteira comigo. E eu me divertia demais.
Por isso, eu e Anthony
fomos nos aproximando cada vez mais. Outra coisa que me chamava atenção nele
era que eu não precisava partilhar muito da minha vida com ele, e ele não
sentia essa necessidade comigo, então só seguíamos curtindo as nossas músicas e
tendo conversas banais. O meu ano anterior tinha sido horrível, e poder ter uma
companhia só por ter, estava me fazendo muito bem.
Em Julho, Anthony
disse que gostaria de ficar comigo. Eu ainda não tinha dado meu primeiro beijo,
e eu não sabia se queria que fosse com ele, então falei que ficaria. Mas a
verdade é que só disse “sim” porque haviam boatos de que ele estava deixando o
time de basquete e, consequentemente, a escola.
Quando voltamos das
férias de Julho, Anthony tinha transferido para uma escola num bairro pobre de
Brighton, o que só me fez perceber que ele passava por dificuldades
financeiras, mas não se sentia confortável em compartilhá-las comigo. Naquele
dia, pela primeira vez, gostaria que tivéssemos uma ligação pessoal maior, que
fosse além de Guns N’ Roses.
Em 2016, Anthony me
mandou uma mensagem no facebook, falando simplesmente “oi”. Eu não respondi.
Em 2017, Anthony
enviou outra mensagem:
“esse foi o maior vácuo da
história, deve ser um recorde.”
Eu dei uma risadinha,
mas eu não respondi.
Em 2018, eu recebi um
stories das cachorras beagle. É, ele tinha mexido no meu ponto fraco:
cachorros. Eu tive que responder.
Leninha_zucco: ai que fofas!
Hahaha
Anthonyoung: olha quem
resolveu me responder! Hahahaha
Leninha_zucco: ai, me
desculpa. Não gosto muito do facebook hahaha.
Anthonyoung: estava esperando
que fosse dizer que não gosta de mim, então já que é do fb, tá perdoada.
Leninha_zucco: hahaha, muito
obrigada então.
Anthonyoung: e aí, como vai a vida?
Nessa conversa com
Anthony, percebi como minha vida era esculhambada para a sociedade. Ele sabia
todos os meus passos: a faculdade de arquitetura na Bélgica, a volta para
Brighton, a faculdade de psicologia entre outras coisas banais que eu postava
no Instagram sem receio de quem fosse ver.
Percebi também que,
enquanto eu era um livro totalmente aberto, Anthony era um armário de academia
trancado com cadeado que só abre com a digital do dono. Eu não sabia nada dele.
Nada. Eu estava perdida em sua vida, e tudo que eu conhecia era um menino que
gostava de Guns N’ Roses e AC/DC com 12 anos. Ele ainda gostava com 18, mas ele
também trabalhava para ajudar a colocar dinheiro em casa, e por isso não pôde
fazer faculdade no momento.
Nós ficamos algumas
vezes. Cheguei a achar que pudéssemos ser um item, e cheguei a achar que ele
realmente gostava de mim. E talvez gostasse mesmo, não fosse só coisa da minha
cabeça. Mas Anthony trabalhava demais, por razões nobres que eu não entendia,
mas respeitava cem por cento. E eu? Bom, eu queria a atenção, mesmo que ela
fosse pouca. Só que ele não conseguia me dar nenhuma. O que ele conseguia, eram
quatro horas semanais, aos sábados, para podermos comer alguma coisa. Em um dos
nossos encontros, ele estava de tão mal humor e tão cansado, que eu soube ali
que não poderia fazer isso. Principalmente porque, mesmo depois de tanto
conversarmos, eu não sabia porque ele tinha saído da escola, há 6 anos atrás.
Anthony era um homem formado, mas ele ainda era um homem que não conseguia compartilhar
a sua vida, enquanto eu abria a minha sem dó nem piedade. Eu queria que ele me
conhecesse, mas ele só queria que eu conhecesse sua carcaça. Eu não queria só
atenção, eu queria a história da sua vida, os momentos bons e ruins, mas o
máximo que eu conseguia tirar dele era como tinha sido o trabalho naquele dia.
*