domingo, 10 de fevereiro de 2019

sweet love of mine


Quase no final de 2018, em Outubro, eu tive uma experiência com “amores do passado”. Em 2012, eu entrei na Brighton High School, e Anthony estava lá, lindíssimo, sentado nas cadeiras do fundo, mas não porque era o bad boy, mas sim porque ele tinha 1,80m de pura gostosura e cabelo bonito.

Anthony tinha cabelo loiro escuro, mas eventualmente ele vinha para a escola com o cabelo molhado, e assim ele ficava moreno escuro, quase tanto quanto o meu. Achava engraçado o quanto o cabelo dele demorava para secar, porque as vezes terminávamos o primeiro período e ele ainda estava escuro.

Seus olhos partilhavam da mesma escuridão, e quando ele sorria, ficavam miúdos, quase orientais, mas sem nenhuma descendência. E, além disso, ele era atleta, jogava basquete no time da escola, mas não era muito popular. Anthony sempre foi mais reservado, e dava para ver que preferia relacionamentos mais intensos e que gostava de ter sempre pessoas por perto para dar-lhe atenção, então preferia fazer amizades com os colegas de sala mesmo. E ele nunca falhou, porque era amigo de absolutamente todos os indivíduos daquela sala.

Anthony e eu nos aproximamos porque tínhamos um gosto musical um tanto peculiar para os nossos 12 anos: eu e ele sabíamos todas as músicas do Guns N’ Roses e do AC/DC. Nunca achei que conseguiria, com tão pouca idade, encontrar alguém para cantar Paradise City inteira comigo. E eu me divertia demais.

Por isso, eu e Anthony fomos nos aproximando cada vez mais. Outra coisa que me chamava atenção nele era que eu não precisava partilhar muito da minha vida com ele, e ele não sentia essa necessidade comigo, então só seguíamos curtindo as nossas músicas e tendo conversas banais. O meu ano anterior tinha sido horrível, e poder ter uma companhia só por ter, estava me fazendo muito bem.

Em Julho, Anthony disse que gostaria de ficar comigo. Eu ainda não tinha dado meu primeiro beijo, e eu não sabia se queria que fosse com ele, então falei que ficaria. Mas a verdade é que só disse “sim” porque haviam boatos de que ele estava deixando o time de basquete e, consequentemente, a escola.
Quando voltamos das férias de Julho, Anthony tinha transferido para uma escola num bairro pobre de Brighton, o que só me fez perceber que ele passava por dificuldades financeiras, mas não se sentia confortável em compartilhá-las comigo. Naquele dia, pela primeira vez, gostaria que tivéssemos uma ligação pessoal maior, que fosse além de Guns N’ Roses.

Em 2016, Anthony me mandou uma mensagem no facebook, falando simplesmente “oi”. Eu não respondi.

Em 2017, Anthony enviou outra mensagem:
“esse foi o maior vácuo da história, deve ser um recorde.”
Eu dei uma risadinha, mas eu não respondi.

Em 2018, eu recebi um stories das cachorras beagle. É, ele tinha mexido no meu ponto fraco: cachorros. Eu tive que responder.

Leninha_zucco: ai que fofas! Hahaha
Anthonyoung: olha quem resolveu me responder! Hahahaha
Leninha_zucco: ai, me desculpa. Não gosto muito do facebook hahaha.
Anthonyoung: estava esperando que fosse dizer que não gosta de mim, então já que é do fb, tá perdoada.
Leninha_zucco: hahaha, muito obrigada então.
Anthonyoung: e aí, como vai a vida?

Nessa conversa com Anthony, percebi como minha vida era esculhambada para a sociedade. Ele sabia todos os meus passos: a faculdade de arquitetura na Bélgica, a volta para Brighton, a faculdade de psicologia entre outras coisas banais que eu postava no Instagram sem receio de quem fosse ver.
Percebi também que, enquanto eu era um livro totalmente aberto, Anthony era um armário de academia trancado com cadeado que só abre com a digital do dono. Eu não sabia nada dele. Nada. Eu estava perdida em sua vida, e tudo que eu conhecia era um menino que gostava de Guns N’ Roses e AC/DC com 12 anos. Ele ainda gostava com 18, mas ele também trabalhava para ajudar a colocar dinheiro em casa, e por isso não pôde fazer faculdade no momento.

Nós ficamos algumas vezes. Cheguei a achar que pudéssemos ser um item, e cheguei a achar que ele realmente gostava de mim. E talvez gostasse mesmo, não fosse só coisa da minha cabeça. Mas Anthony trabalhava demais, por razões nobres que eu não entendia, mas respeitava cem por cento. E eu? Bom, eu queria a atenção, mesmo que ela fosse pouca. Só que ele não conseguia me dar nenhuma. O que ele conseguia, eram quatro horas semanais, aos sábados, para podermos comer alguma coisa. Em um dos nossos encontros, ele estava de tão mal humor e tão cansado, que eu soube ali que não poderia fazer isso. Principalmente porque, mesmo depois de tanto conversarmos, eu não sabia porque ele tinha saído da escola, há 6 anos atrás. Anthony era um homem formado, mas ele ainda era um homem que não conseguia compartilhar a sua vida, enquanto eu abria a minha sem dó nem piedade. Eu queria que ele me conhecesse, mas ele só queria que eu conhecesse sua carcaça. Eu não queria só atenção, eu queria a história da sua vida, os momentos bons e ruins, mas o máximo que eu conseguia tirar dele era como tinha sido o trabalho naquele dia.


*

Oi, tudo bem? 

Eu tenho escrito algumas coisas que ainda não tenho certeza como encaixar juntas, mas talvez sejam mais pro lado das crônicas. Enfim, se puderem deixar a opinião de vocês nos comentários, ou se gostariam de ler mais algumas dessas, eu ficaria muito feliz. 

♥ 

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